segunda-feira, 5 de julho de 2010

O primeiro sinal 1/3.

«Jesus, tanta coisa linda!»

E era o meu próprio roupeiro. O meu roupeiro mágico.
Na minha mala apenas levava o que me restava do incêndio, o telemóvel, algum dinheiro e a minha carteira com os meus documentos. Apenas isso. Embora levasse o meu diário, não tinha escrito nele.

Decidi dirigir-me à casa de banho. Ficava à esquerda da minha cama, por detrás de uma porta preta. Era roxa e branca, e estava decorada num estilo totalmente gótico alternativo.

Vi-me ao espelho. E vi outra vez. Uma sombra que não era minha. Um ser místico como um lobo.

Senti que me pegavam nos pés, e ouvi a porta trancar. Não me agradou nada. Depois senti um zumbido quente e rouco no ouvido.
Só percebi uma palavra.

«Death».
Nada que nunca tivesse visto, mas a verdade é que estava aterrorizada com o que tinha acontecido com a minha mãe. Fechei os olhos e senti o penetrar frio de agulhas, tão frias como aquelas que eu tinha levado contra as doenças. Ardia, queimava.

- Jodi…
O murmurar profundo e infinito de uma voz desconhecida, quase muda.
- Vem…

Doía-me o corpo, e como bichos, as agulhas iam-me trepando as pernas.
Fechei os olhos com tanta força que quando descontraí, eles também doíam. Apertei as mãos, uma contra a outra, com tanta força, e tentei que o fogo me ouvisse, me respondesse. Abri os olhos e senti o meu corpo tremer, de tão assustada que estava. Via o meu reflexo no espelho, trémulo, inseguro. Os meus olhos cor de âmbar dançavam com o fogo que neles se via, era o poder dentro de mim. Fechava-os devagar e abria-os com a mesma naturalidade. Senti um vento quente e vermelho rodopiar sobre mim. Quando larguei as mãos, senti um sorriso desenhar-se lentamente na minha cara, o meu cabelo moreno enrriçava-se, os meus caninos cresceram, as minhas unhas tornaram-se cortantes e afiadas e a minha roupa rasgava-se queimada pelo fogo que me incendiava a pele. Já não era eu. Já não me sentia em mim. Aquela dor tornava-se banal, e as picadas quase que faziam cócegas. Os meus olhos tornaram-se vermelhos como rubis e a minha pele mudou para uma tonalidade mais escura, um castanho acinzentado, com os pêlos brilhantes de um lobo. O lobo que tinha visto no espelho em casa de Bells e a sombra que via no espelho desde que tinha chegado àquele hotel. Começou-me a doer as costas, os ossos e os músculos. O meu peito doía-me de tal maneira, que me pus com os quatro membros no chão. A minha mentalidade mudou: pensei em destruir aquela porta negra e descer aquelas escadas, chegar à sala de entrada e sair para fugir, livre. Era um lobo, um animal.